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Política, ciência e vacinas: algumas ponderações acerca de Doria e Bolsonaro

 No dia 07 de janeiro, nós, brasileiros que acompanhamos as notícias, conjugamos algumas sensações: tristeza e alegria, medo e coragem, desespero e esperança, ódio e amor; enfim, um misto de sentimentos no que tange à nossa realidade.


AMANHECER DA NOTICIAS

Ultrapassamos, infelizmente, a marca de 200 mil mortos. Mas, também, foram anunciados os dados da vacina Coronavac, desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac.


Há tempos, afirma-se - e com razão - que o tema da vacina foi politizado. Assim, no palco político há dois principais contentores: de um lado, o presidente Jair Bolsonaro; do outro, o governador de São Paulo, João Doria. Contudo, não é uma disputa, como dizem os operadores do Direito, igualitária, naquilo que chamam de "paridade de armas". Explico. Bolsonaro foi, desde o início da pandemia, um negacionista e tratou o vírus e a doença com menoscabo, bem como apostou em medicamentos cuja eficácia no tratamento da covid-19 não tem respaldo científico. Já em São Paulo, Doria, inicialmente, já montou um comitê multidisciplinar, com seus secretários de estado e especialistas, para acompanhar e formular políticas públicas objetivando compreender, equacionar e implantar ações concretas em todo o estado. Além disso, há em São Paulo o Instituto Butantan, cuja história e com cientistas renomados iniciou, em parceria com o laboratório Sinovac, o desenvolvimento de uma vacina. Há muito, milhares de brasileiros são imunizados a partir de vacinas desenvolvidas no Butantan. Numa charge, ilustrando um artigo acerca da politização da vacina e o embate Bolsonaro/Doria, o desenhista colocou o presidente e o governador frente a frente e montados em suas respectivas seringas, cujas agulhas apontavam na direção do oponente. É, aqui, que se pode afirmar que não há "paridade de armas", pois Bolsonaro não tem vacina para montar e se contrapor a Doria.


Mesmo a vacina desenvolvida pela Fiocruz, em parceria com Oxford e o laboratório AstraZeneca, terá, quando ficar pronta, os méritos dos pesquisadores da Fiocruz e bem pouco da gestão do governo federal. Aliás, em 07 de janeiro, de forma precisa e didática, em entrevista, como lhe é peculiar, a pneumologista Margareth Dalcomo, pesquisadora da Fiocruz, afirmou que quem salvará o Brasil serão as instituições públicas de pesquisa, o Butantan e a Fiocruz, com capacidade de produção das vacinas em larga escala. Bolsonaro fez pouco caso da Coronavac, chamando-a de "Vacina do Doria" e os bolsonaristas de "vaChina", numa orquestrada operação para macular a vacina e, obviamente, o "inimigo" Doria. Bolsonaro chegou a comemorar uma morte de um voluntário e, depois, a suspensão dos testes, via redes sociais. Depois, noutra fala presidencial, fez chiste de que a eficácia da Coronavac não era tão boa. Há meses, General Eduardo Pazuello, Ministro da Saúde, havia afirmado publicamente e até firmado protocolo de intenções de comprar a Coronavac para o plano nacional de imunização, ato contínuo, Bolsonaro veio a público, novamente, desautorizar o ministro.


Após a apresentação dos dados de que a Coronavac traz 78% de eficácia para casos leves e 100% de eficácia para casos moderados e graves, o Governo Bolsonaro acusou o golpe e, se juiz houvesse, abriria contagem. Mesmo antes dos dados serem apresentados e o pedido de uso emergencial ser enviado a Anvisa, o governo de São Paulo já havia indicado data para início da vacinação no estado: 25 de janeiro de 2021. Com isso, politicamente, abre-se uma distância abissal entre Doria e Bolsonaro. Qual a reação do Ministério da Saúde após o anúncio da eficácia da Coronavac? Comprará a vacina e distribuirá em todo o Brasil. A "vaChina" deverá ser aprovada pela Anvisa e estará à disposição dos brasileiros. E, melhor ainda, quando a vacina da Fiocruz também estiver disponível. Ganhamos todos.


Muitos criticam - bolsonaristas a frente - o fato de que Doria vai capitalizar politicamente com a vacina e que isso será alicerce para sua narrativa numa disputa para a presidência em 2022. A questão, aqui, é que, numa democracia, políticos podem, legitimamente, colocar seus nomes para escrutínio numa eleição e terão ou não votos, de acordo com a avaliação dos eleitores/cidadãos. Fernando Henrique Cardoso ganhou capital político com o Plano Real, foi eleito e reeleito, no primeiro turno; Lula, da mesma forma, colheu os frutos positivos do Bolsa Família e da diminuição da pobreza; até mesmo Bolsonaro gostou assaz de ter melhorado sua aprovação com o pagamento do auxílio emergencial. Desta forma, imaginar um político que não queira ganhar aprovação e capital político com suas realizações é imaginar um atacante que não quer fazer um gol na final da Copa do Mundo. A Coronavac garante a vitória de Doria em 2022? Claro que não. Uma eleição depende de inúmeros fatores, contudo, inegável que, com a vacina, retomada econômica em São Paulo, Coronavac em várias regiões do Brasil, isso dá um bom pavimento para a estrada a ser percorrida nos próximos dois anos e projeção nacional para Doria. Políticos são eleitos e reeleitos de acordo com suas ações e suas posturas, são julgados pelo eleitor, com avaliação de seus acertos e erros. Por isso, os brasileiros farão, democraticamente, escolhas eleitorais. Impossível, hoje, desenhar um cenário ainda distante para o tempo e a lógica da política.


Em síntese, a vacina é vitória da ciência, das instituições públicas de pesquisa e da política como gestão da vida coletiva, da vida em sociedade. Imagino que se olharmos no currículo dos pesquisadores do Butantan e da Fiocruz, teremos trajetórias de alunos que tiveram bolsas de estudo na graduação, no mestrado e no doutorado, bem como financiamento de suas pesquisas e estágios de pós-doutorado no exterior. A lógica da ciência e da política são, por certo, distintas, mas quando a ciência e a política agem em parceria, podem iluminar as trevas e trazer à tona ganhos civilizacionais incontestáveis.


Rodrigo Augusto Prando é professor e pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Graduado em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia, pela Unesp


Sobre a Universidade Presbiteriana Mackenzie

A Universidade Presbiteriana Mackenzie está na 103º posição entre as melhores instituições de ensino da América Latina, segundo a pesquisa QS Quacquarelli Symonds University Rankings, uma organização internacional de pesquisa educacional, que avalia o desempenho de instituições de ensino médio, superior e pós-graduação. Possui três campino estado de São Paulo, em Higienópolis, Alphaville e Campinas. Os cursos oferecidos pelo Mackenzie contemplam Graduação, Pós-Graduação Mestrado e Doutorado, Pós-Graduação Especialização, Extensão, EaD, Cursos In Company e Centro de Línguas Estrangeiras.

Em 2021, serão comemorados os 150 anos da instituição no Brasil. Ao longo deste período, a instituição manteve-se fiel aos valores confessionais vinculados à sua origem na Igreja Presbiteriana do Brasil.

 Semana abafada e com temporais em SP

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